sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Era segredo

Mas daqui, de tão longe
Me toma uma vontade de
Me expor em um vestido rodado

E, de lábios vermelhos,
Deixar escapar todas as palavras
que tenho engolido por tantos dias...

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A casa ideal

Então aquele caixote de porta cinza virou a minha casa.
A janela é menor do que eu desejava, mas tem o tamanho suficiente para manter o caixote claro durante todo o dia (o que, incrivelmente, nem sempre acontece em Brasília).

Não vou mais ouvir o som de violinos desafinados nem sentir aquele cheiro de cola, que vinham do Ateliê de Violinos, antigo vizinho. Nem terei o desprazer de escutar todas as manhãs o vizinho asqueroso que fazia questão de escarrar bem abaixo da antiga janela. Que alívio.

Agora ouço o barulho de carros (um fluxo que parece sempre constante) e sinto um cheiro de comida que parece nunca se contentar com o espaço do seu caixote encerrado por sua porta cinza. E tenho agora um neighbour, PhD por alguma American University, que faz desde "sessões de psicanálise" até "missões" (há uma lista dos seviços oferecidos pregada à porta).

Continuo não tendo uma vista perfeita, a casa está longe de ser aquela dos sonhos. Mas agora, neste momento, é a ideal porque é minha.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Papéis velhos (ou: A inspiração me abandonou)

Quero você, ideal de corpo,
Como uma estátua grega
Enfeintando a sala de estar que não tenho.
Pra te contemplar, mudo.
E eu calada.

Apenas o tato em lençóis estrangeiros
também me agrada.

Sobretudo, devem ser interditadas
entre você e eu as palavras.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Guardanapos de bar III

Declive, nós subimos.
Você me escorrega, líquida mulher.
Paredes: escuto gosmas,
lembranças moles
balançando palavras sóbrias

(N. e H.)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Que nem mulher

Sábado de manhã. Da minha escrivaninha, onde leio enquanto tomo um capuccino, escuto a conversa de dois trabalhadores que colocam pastilhas na parede do andar de baixo.
- Pegou aí o jeito?
- Acho que peguei, sim.
- Não tem muito mistério, já vi que o negócio aqui é que nem mulher. É só ir alisando, colocando no lugar...
Os dois dão boas gargalhadas. E eu também.

domingo, 12 de abril de 2009

Escrever, Escrever

"Você está olhando para fora e, de todas as coisas, é essa que você não deve fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Só existe um meio. Vá para dentro de você mesmo. Descubra o motivo que lhe pede que escreva; examine se suas raízes estão nas partes mais profundas de seu coração, confesse a você mesmo se morreria se escrever lhe fosse negado. Isto, antes de qualquer outra coisa: pergunte a si mesmo, na calada da noite: 'Sou obrigado a escrever?'. Escave fundo dentro de você mesmo para encontrar uma resposta profunda. E, se for afirmativa, se você puder responder a essa indagação solene com um forte e simples 'tenho que fazê-lo', então construa sua vida de acordo com essa necessidade".

Rainer Maria Rilke

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Ilusão de ótica

Você fica tentando me enganar com essas lojas pomposas, essas boutiques grã-finérrimas, esse design sofisticado.

Mas o churrasquinho da esquina, os meninos vendendo pano de prato no bar, aquela gente morando na Rodoviária escancaram: você não passa de uma capital de terceiro mundo, Brasília.